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A história da Ana, do direito à tradução

Atualizado: 25 de fev. de 2021

Ana, 32 anos. Cresci a ver filmes de advogados e devorar livros sobre injustiças. Sabia que queria ir para Direito ainda antes de saber o que isso queria dizer. Depois apaixonei-me por viajar e pensei em juntar os dois: ia ser embaixadora.


No final do 2.º ano de direito estava mais balançada que uma mesa com uma perna curta: queria desistir do curso, queria ser jornalista, mas estava precisamente a meio e deitar fora as muitas cadeiras já feitas soava-me demasiado a falhanço. Então terminei-o e depois ainda fiz um Mestrado em Direito Internacional e Relações Internacionais (já havia abandonado os sonhos da carreira diplomática, mas agradou-me a temática). Quando terminei o curso decidi ser advogada e queria muito começar, tinha a certeza que ia adorar.



Não muitos anos depois, trabalhava num escritório de advogados, tinha o mestrado terminado, havia feito a agregação na Ordem dos Advogados com sucesso e sentia-me profundamente triste e por realizar. De manhã olhava ao espelho e pensava «Porque é que não estou bem? O que é me faz tanto odiar isto?».

Fiz desporto. Viajei. Fiz Ioga. Testei tudo e fiz a prova dos nove às minhas relações e no final só havia uma coisa que não me agradava. O trabalho.


Lembro-me de às vezes ao domingo à noite chorar porque ia começar mais uma semana. Quando partilhava estas angústias perguntavam-me: «Porque não mudas de escritório?» e eu pensava: «Porque não quero mais isto».

«Porque não tentas trabalhar noutro tipo de Direito?»

«Mas qual tipo? Não gosto de nada.».

«Mas como se estudaste tanto?».


A maioria tinha um desdém típico da incompreensão e eu deixei-me levar por ele. Pedi um aumento e reconhecimento e quando me deram fiquei sem trunfos. Bolas, tive mesmo que admitir: não gostava mesmo do que fazia.



Desde que iniciara o estágio de advocacia que me tinha dedicado a traduzir e a minha fluência em duas línguas e gosto por uma tarefa da qual todos fugiam preencheu muitas vezes o meu dia, era a minha tarefa preferida. Então, como que de mansinho, uma ideia absurda começou a nascer em mim: vou ser tradutora. No início achei que ninguém me ia ajudar por isso fiz o que faço sempre: planeei. Procurei estudar, fui saber quais os melhores cursos, o que podia aprender que a experiência não ensine e onde podia trabalhar. De repente descobri que a maioria dos tradutores é freelancer e pareceu-me perfeito. E então comuniquei a minha decisão: vou despedir-me e ser tradutora.


Disseram-me que era doida, que ia trocar o certo pelo incerto e fartar-me de estar em casa. Às vezes ainda dizem. Outros acharam que eu tinha sido despedida ou que ganhava mal e por isso tinha de sair e só consegui arranjar estes biscates. Ainda há quem viva preocupado e como entretanto fui mãe muitos acham que na verdade nem trabalho. Deixei de ser advogada pouco depois de me despedir — aquilo que continuava a fazer a título individual não era rentável. Assisti paulatinamente à minha descida de status: «sou tradutora» não abria as mesmas portas do respeito e deferência que um «sou advogada». Tento desvalorizar, mas algum julgamento e despeito continuam a mexer comigo, talvez porque eu própria nunca me imaginei sem a tal carreira de escritório.



Aprendi que o sucesso não tem sempre saias de escritório e sapatos de salto alto e que o meu metro quadrado de casa onde está computador com ligação à internet sustenta-me e realiza-me e isso é mais importante que o resto. Não posso dizer que tenha sido uma mudança radical, continuo a trabalhar com direito, faço tradução jurídica, mas mudei, contra as expectativas de muitos. Despedir-me em plena época de crise foi das coisas mais malucas que fiz e simultaneamente das mais felizes. Mudar foi o melhor, era infeliz e agora não sou e ensinou-me que fazer planos é ótimo, mas que não há porque resistir a mudá-los. Chegaram a dizer-me «Tradutora? Mas vais fazer isso o resto da vida?». Não sei. Se me apetecer, mudo de novo. Se quiser ser outra coisa, vou tentar. Agora estou bem.



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