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  • My Great Change

A história da Teresa, sem esperas pelo fim-de-semana


Nasci e cresci em Coimbra, cidade que me acolheu até aos tempos de Universidade e que me deu uma vida académica muito feliz, balançando um pouco as memórias da minha infância e adolescência. Vivi sem os meus pais desde os seis anos e cresci um pouco desamparada, sem grandes momentos de êxtase ou memórias bonitas. Aos 17 anos comecei a trabalhar ligada à restauração (bares, discotecas), o que me permitiu pagar a faculdade, e assim que acabei o curso fui convidada para gerir um restaurante em Lisboa, algo que sempre tinha feito parte dos meus planos e que me fez sentir que o meu trabalho árduo desde cedo começava a dar frutos.


Mudei-me para Lisboa em 2012, e senti que estava a viver a vida que me tinham dito para viver: estudar, conseguir um bom emprego, trabalhar, casar, ter filhos, etc. Para quem vem de uma cidade pequena, Lisboa era um céu aberto de oportunidades que me fez crescer muito, tanto a nível pessoal como profissional. Tinha uma vida estável, um bom trabalho, bem pago, um T1 em Belém e um namorado. Cheguei a pensar que tinha encontrado o meu lugar e ia morar ali para sempre. Mas, ao fim de três anos, comecei a sentir-me inquieta, a questionar o que viria depois. Queria viver mais. Começaram a atormentar-me alguns pensamentos “Não quero viver para trabalhar. Não conheço nada do mundo, nunca viajei, os meus dias são passados entre casa e o trabalho”. Sentia um vazio dentro de mim a crescer, que tentava preencher a comprar bens materiais, forçando-me a acreditar que estava bem, com a pessoa certa e que tinha a vida perfeita, a vida que era suposto. Tinha vindo do nada e tinha conquistado tudo com tanto esforço, não podia iludir-me. É engraçado como nos perdemos facilmente nestas ideias do que “é suposto”, do que a sociedade impõe. Demorei muito mais do que devia ter demorado a tomar a decisão de mudar, de trocar o certo pelo incerto.


Desde que me lembro de ser gente que queria fazer um mochilão pela Tailândia, ideias que tinham ficado do filme “A Praia” com o DiCaprio. Em 2015 era tempo de tirar férias, convenci o namorado a ir comigo e embarcamos numa viagem de 25 dias. Foi sem dúvida o começo. O começo de um novo ciclo e o fim de outro. Aqueles 25 dias serviram para me mostrar que o mundo estava aberto para quem estivesse aberto também. Aberto para conhecer novas culturas, pessoas, comidas... Sair da zona de conforto. Na viagem de regresso a Portugal já estava decidida, iria trabalhar o dobro para depois me despedir, teria que arranjar alguém para ficar com o contrato da minha casa e teria que terminar a minha relação (porque as viagens a dois também servem para perceber se aquela pessoa é a tua pessoa ou não). Ia embarcar numa viagem sem fim, por uma “loucura” de querer ver o mundo. Tive muitos momentos de medo, de hesitação. Mas nós sabemos sempre aqui dentro o que é melhor para nós. Sempre.




Menos de 1 ano depois, com 26 anos estava a sair de Portugal com um bilhete sem volta, Lisboa – Malásia, 4500 euros no bolso e uma mochila com a minha vida toda lá dentro. 14KG de vida (mais tarde viria a perceber que só precisava de metade). O ano antes da partida foi muito importante na minha vida, foi um ano de desapegos de bens materiais, emocionais, de quebrar laços com a rotina e o conforto. Muitos dos meus amigos e família acharam que estava louca e acharam que ia voltar em menos de um mês.

- “Olha agora quer ser hippie.” - Foi a frase que mais escutei.

Não sabia até onde chegaria e embora tivesse alguns medos, não estava preocupada. Sentia-me livre e a tomar a melhor decisão da minha vida. O meu instinto dizia-me que não me iria arrepender. E nunca me arrependi.


Viajei pela Indonésia, vivi numa ilha deserta na Malásia, dei aulas de Inglês na Tailândia, vivi num centro budista no Myanmar, viajei à boleia desde Banguecoque até chegar a Kuala Lumpur, fiz o Laos de mota e a dois dias de sair do Laos parti o braço mas não queria voltar para casa por isso voei até ao Sri Lanka onde passei um mês incrível, trabalhei na Austrália, conheci pessoas maravilhosas e lugares de cortar a respiração, saltei de cascatas virgens com 20 metros de altura, nadei em águas feitas de azul difícil de acreditar, comi coisas que até hoje não sei o que eram no Vietname, viajei em autocarros desconfortáveis com bancos de madeira durante 18 horas, dormi em quartos de hostels com mais 15 pessoas por 2$ com pequeno-almoço incluído e em Teepees em frente ao mar por 5.



As histórias e experiências que vivi e absorvi não têm fim. Muitas histórias incríveis. E outras tantas mais assustadoras. Quando viajamos sozinhos aprendemos a conviver muito com nós próprios, não há mais ninguém para culpar das más decisões tomadas. Somos só nós a comandar o nosso barco. Houve momentos de solidão, de tristeza, de angústia. Momentos em que pensava que ía ficar sem dinheiro ou que não iria conseguir chegar até ao próximo destino, momentos em que não sabia como me expressar (importante lembrar que quando comecei a viajar o meu inglês era praticamente inexistente e isso dificulta tudo). Momentos de cansaço emocional pois nem todos os dias são dias sim, nem sempre temos disponibilidade mental para estarmos sempre prontos a fazer planos “Para onde vou a seguir? Onde vou dormir? Quanto dinheiro posso gastar?”. Mas, no final, o balanço é infinitamente positivo. Vivi mais num ano do que tinha vivido até ali ou do que alguma vez esperei viver. Isso mudou-me, dos pés à cabeca. Mudou a minha forma de ver a vida, a minha maneira de ser. Mudou tudo.


Levada pela pressão de amigos e família (– “Teresa já passou UM ano. Está na hora de voltar!”) voltei a Portugal e num piscar de olhos estava de volta, a fazer o que sempre tinha feito, envolvida em projetos de restauração, clubes, eventos. Mas eu já não era a mesma. Já não queria saber dos saldos da Zara ou daquela festa incrível no sítio do costume, o dinheiro que ganhava dizia-me muito menos do que um dia tinha dito. O ano tinha sido incrível, mas não tinha servido para fazer com que o “percurso normal” passasse a fazer sentido.


3 meses depois decidi voar para o México (o país que se viria a tornar o mais especial de sempre), onde vivi o melhor ano da minha vida e onde trabalhei num resort na praia. Percebi que é possível ter um trabalho ao mesmo tempo que vivemos a vida que sempre sonhámos. Que um não impede o outro. É possível viver todos os dias sem ter que esperar pelo fim-do-dia, pelo fim-de-semana, pelo fim do mês para sermos felizes.

Sofri um acidente de mota no México, grave o suficiente para me deixar de cama durante dois meses.


Achei que ficaria no México a vida toda, mas o sofrer deste acidente e o facto de ter encontrado o amor numa viagem à Califórnia, acabou por me trazer até aqui, onde já vivo há dois anos. Se acho que encontrei o lugar onde vou viver a vida toda? Não! Mas haverá um lugar onde viverei a vida toda? Não sei, só o tempo terá a resposta. Os amigos que fiz pelo mundo dizem-me sempre “Teresa tu és do mundo!” E gosto de acreditar que sim. Mas acredito que tudo é melhor partilhado a dois e a vida é uma eterna viagem. Agora tenho uma vida mais estável e mais parecida com a que tinha em Portugal , com a minha casa, o meu namorado, o meu trabalho (neste momento sou assistente pessoal mas espero voltar à minha área [hotelaria e restauração] em breve). Talvez noutro momento, num futuro próximo, possa falar um pouco de todo o processo de legalização nos USA. Para já importa dizer que estou feliz e que encontrei mais uma parte de mim. Depois de tanto tempo a viajar e a movimentar-me pelo mundo, foi preciso ouvir o meu corpo e esta vozinha interior. Não gosto de fazer grandes planos para a vida, mas sei que ainda tenho muito para conhecer.


Quando me perguntam como consigo que tenha sido tudo tão fácil nesta minha jornada pelo mundo a resposta é: Não foi! Mas é tudo uma questão de perspectiva e a minha perspectiva mudou. As coisas que me incomodavam antes deixaram de incomodar, os bens materiais que eu achava que precisava deixaram de fazer falta, os meus problemas comparados com tantos problemas que existem pelo mundo deixaram simplesmente de ser problemas. A felicidade está em nós.


Quando começamos a viajar e percebemos o quão fácil é, ficamos viciados na sensação de adrenalina que nos provoca. Ainda quero fazer aquela viagem de comboio desde Moscovo até chegar à China, um retiro espiritual no Nepal, quero fazer voluntariado em África, cruzar a Mongólia a cavalo, conhecer o país mais feliz de mundo, o Butão, subir o Kilimanjaro, ver as auroras boreales na Islândia, chegar à Terra do Fogo na Argentina, viver um Verão em França, entre muitos outros.

Quando olho para trás e vejo tudo aquilo que já vivi só tenho um conselho.

A vida é um sopro. Precisamos de fazer mais do que temos vontade e menos do que é suposto.

Hoje voltaria a fazer tudo outra vez.

Teresa Around The World

Para @mariana_mygreatchange


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