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A história da Maria Filipa


Cresci dentro de uma farmácia a ver a minha avó a cuidar de todos e a ser uma verdadeira agente de saúde pública, um ás da farmácia galénica, apaixonada por plantas medicinais. Absorvia livros como eu bebo copos de água e ensinou-me que o conhecimento é um privilégio de grande responsabilidade. O meu avô, obstetra, foi nos anos 50 para o Senegal como Bolseiro da OMS - que na altura existia há não mais que 10 anos. Do Senegal, partiu para vários outros países africanos, e passou também pela India. Reza a lenda que acordava a qualquer hora da noite para fazer um parto complicado numa qualquer tribo algures no meio do nada, e que passou meses na selva com curandeiros locais a fazer um compêndio de medicamentos tribais para futura investigação. Não o conheci, mas dizem que somos parecidos. Cresci com vontade destas experiências, desta forma de viver a vida, de usar o privilégio do conhecimento para dar aos outros.



Sou a 3ª geração de farmacêuticos na família e tive o prazer e privilégio de viver fora, na Holanda e na Escócia, onde estudei e trabalhei. Foi ao estudar no exterior que descobri uma nova área da farmácia, indiretamente ligada à saúde pública, chamada farmacoeconomia. É uma àrea mais analítica da farmácia e mais ligada aos números, o que me cativou de imediato. Farmacoeconomia acabou por ser a àrea em que escrevi a minha tese e foi ela que me levou a fazer um MBA em gestão de saúde internacional. Antes de a conhecer acreditava, ou faziam-me acreditar, que era impossível juntar cliníca farmacêutica e economia. Ou decidia ser gestora em saúde ou farmacêutica, o que me estava a fazer deixar a última valência de lado. Mas a felicidade com os estudos desta altura não teve igual e provou-me que, afinal, podia juntar tudo o que queria. Desde programas de saúde materna e infantil no Camboja, a políticas de saúde na europa para melhor gestão e prevenção de doenças crónicas, estava na minha praia! Sempre tinha tido o bichinho de missões humanitárias. Enquanto farmacêutica pura, sempre tinha sido difícil encontrar vagas em organizações humanitárias e sentia-me sempre presa ao ciclo do costume: para entrar em organizações precisava de experiência, que só conseguia entrando nelas. Assistir a um seminário em que ouvi o diretor do departamento de medicamentos essenciais da OMS e a presidente da UN Women, pessoas com visão global, acessíveis e muito respeitadas nas suas áreas, fez-me sentir que tudo com o que sonhava se podia concretizar.



Infelizmente, adoeci durante este MBA e tive que voltar a Portugal. Estava num caminho que me preenchia e por razões de saúde teria que abandonar um sonho e voltar ao negócio da família, voltar à base e deixar todos os desejos de experiências novas nos quatro cantos do mundo. Sei que não era o fim do mundo, tenho muita sorte em ter essa possibilidade e gostava muito que me fizesse feliz. Mas não fazia, de todo. Passei os anos seguintes algo perdida. Fiz tanto e tão pouco, deambulei por várias áreas e deixava-me andar. Candidatei-me a várias grandes consultoras (farmacêuticas e não só) pois sabia que todas faziam trabalho pro bono com algumas das grandes organizações internacionais humanitárias. Feliz, ou infelizmente, não entrei em nenhuma. Fiz uma pós-graduação em análise financeira que hoje uso para benefício próprio e para o negócio e candidatei-me também ao programa INOV contacto. Fui parar a Madrid, onde trabalhei em marketing para a indústria farmacêutica, continuando sempre a gerir o negócio de família, mesmo quando estava fora, o que sem querer me começava a abrir outras portas. Fui evoluindo como gestora e como farmacêutica mas, emocional e psicologicamente, estava cada vez mais amarga em relação à minha vida. Com o tempo, eu tinha ficado adormecida, achava que tinha que me contentar. A condição física que me tinha limitado e que me fizera retornar a Portugal estava cada dia mais ultrapassada mas confesso que tinha ficado tão dormente na minhas limitações que a oportunidade que surgiu foi mais por uma questão de sorte do que por ter voltado a correr atrás do que queria. A sorte, em parte, faz-se, e isto não foi excepção.


Mantive sempre o contacto e o interesse pelos temas humanitários, e em 2018, um professor que tinha tido na Escócia contactou-me com a proposta de ir para a Grécia reestruturar a farmácia de uma clínica de um campo de refugiados. O que seriam 2 semanas transformou-se em meses e 4 campos diferentes. Restruturei farmácias para o governo, para ONGs e para a Cruz Vermelha Internacional. Senti que estava a recomeçar de onde tinha ficado e era a hora de voltar com tudo. Falei com o máximo de pessoas que consegui à procura de informação e de relatos na primeira pessoa. Decidi candidatar-me aos Médicos Sem Fronteiras e preparei-me como nunca o tinha feito, não queria deixar nada ao acaso. Aprumei o meu francês, fiz contactos no linkedin com pessoas que trabalhavam lá para preparar e iniciar o processo de recrutamento. Foi longo, trabalhoso e desenhado para nos fazer questionar, em cada fase, se estamos dispostos a fazer um trabalho em que podemos não voltar a casa. No entanto, tudo se desenrolou com enorme naturalidade. Quando é para ser, é! Passados uns meses estava em Barcelona a fazer o curso para poder ir para terreno. Já tinha estado na Grécia, um enorme abrir de olhos para a dura realidade que tantos vivem. Mas desta vez a ficha só caiu quando numa das apresentações começámos a ser treinados para a hipótese de nos encontrarmos de repente num campo minado de granadas.



A minha primeira missão foi na República Democrática do Congo. Cada vez que que dizia a alguém a exclamação era inevitável: “Congo?!!!”. Vivi 6 meses no meio da Selva Congolesa, rodeada de kalashnikovs e grupos armados. Lembro-me bem do dia em que chegou o nosso jipe à vila do projeto onde estávamos e fez furor, muitos nunca tinham visto um carro. Tomei banho de balde meses a fio, a água para lavar os dentes era clorada para não apanharmos nenhuma bactéria. Nas enfermarias do hospital passeavam galinhas e cabras entre os doentes, vi cesarianas serem feitas com uma lanterna de testa. Vi crianças morrer porque não há no mercado concentradores de oxigénio que funcionem com eletricidade de voltagem baixa. Foi muito difícil. A insegurança e o medo foram constantes e vi tanto que nunca quis ver. Mas também experienciei o que de melhor existe no ser humano, tive a oportunidade de fazer um trabalho com um impacto quase imediato, e isso não tem preço.


Do Congo passei para o vizinho Sudão do Sul, onde tive a minha experiência seguinte. Aqui, entre todas as várias limitações deste tipo de trabalho, fui chefia de uma equipa constituída apenas por homens, o que representou uma dificuldade acrescida. Para 2021, Darfur está nos planos. Geri milhares de euros em medicamentos, escolhas que determinaram diariamente a vida, morte e sofrimento de tantos, num cenário onde conseguir o medicamento certo pode demorar meses. Geri inúmeras equipas multiculturais, tornei-me mais tolerante para com as diferenças, quer profissionais, quer pessoais. Surpreendi-me nas minhas capacidades. Este ano fui convidada a escrever um capítulo para um guia clínico de saúde pediátrica de refugiados, para uma editora de renome no mundo da ciência. Sinto que me começam a ver como especialista nesta área, o que é muito gratificante.


Atualmente divido o meu tempo entre Portugal e a farmácia onde tenho uma equipa incrível e com quem gosto muito de trabalhar, e os projetos da Médicos sem Fronteiras onde aprendo imenso, enriqueço profissionalmente, e de onde venho mais humana. Sei o privilégio que é trabalhar no que gosto, tenho um prazer desmedido pelo que faço nestas missões. Vale por todos os momentos menos bons. Apenas posso recomendar não pararem de procurar adquirir todo o conhecimento que puderem na área que gostam, enquanto puderem. Será sempre a maior porta de oportunidades. É possível que em várias fases da vida nada se encaixe e para elas será preciso paciência e resiliência. Parar e esperar que tudo se volte a encaixar sozinho é geralmente a pior opção. Continuem, invistam no que surgir, no que puderem. Quando o momento aparecer para conseguirem o que querem, vai ser preciso coragem para agarrar o desafio. Cabeça e coração abertos serão essenciais para identificar a oportunidade quando ela surgir. Às vezes estamos tão focados nos problemas que as oportunidades acenam e não lhes damos resposta.

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